sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Click Chemistry

 por F. R .G. Bergamini

Na  natureza,  a  maior  parte  das  moléculas  presentes  nos  seres  vivos,  seja  apresentando  função  estrutural  e/ou função  metabólica,  apresentam  ligações  entre  um  heteroátomo  e  carbono,  em  caráter  preferencial  às  ligações carbono-carbono. Pode-se, dentre elas, ressaltar os aminoácidos, os ácidos nucléicos e os monossacarídeos, os quais são caracterizados como subunidades, ou blocos de montagem que, em reações quase sempre em meio aquoso, são unidas  via  ligações  carbono-heteroátomo,  dando  origem,  respectivamente,  às  proteínas,  ao  DNA  (ou  RNA)  e  aos carboidratos.[1]
Foi baseado nesta abordagem reacional que em 2001, munido de resultados decorrentes do desenvolvimento de compostos  os  quais  poderiam  ser  utilizados  como  “blocos  de  montagem”  para  a  formação  de moléculas  mais complexas,  Sharpless  e  colaboradores [1] cunharam  um  novo  conceito  ou  proposição  sintética  denominado  “click chemistry”,  cujo  moto  principal  foi  ir  de  encontro  ao  desenvolvimento  de  novos  compostos  baseado  em metodologias de síntese de alto preço, difícil execução e aplicação em larga escala.
Para que um processo ou reação seja denominado como “click chemistry”, entretanto, ele deve obedecer a um conjunto  de  critérios  rigoroso,  tais  quais  sejam  a  possibilidade  de  modulação  da  reação  (isto  é de  controle  da mesma),  deve  apresentar  grande  extensão,  com  rendimentos  muito  altos  além  de  gerar  somente  subprodutos inofensivos   os   quais   possam   ser   removidos   por   técnicas   não-cromatográficas.   A   reação   tem   que   ser estereoespecífica, deve requerer condições simples (idealmente, o processo deve ser insensível a oxigênio e água), com  materiais  iniciais  e  reagentes  altamente  disponíveis  e  com  o  uso  de  nenhum  solvente  ou  de  um  solvente “benigno” ou, ao menos, um solvente que seja facilmente removido. Além destes critérios, o produto deve também ser facilmente isolado. [1]
A questão ambiental envolvida na produção de resíduos não invasivos e de fácil tratamento, e principalmente, o interesse  econômico decorrente do baixo custo na produção do composto ou material desejado, fez com que  esta abordagem,  com  o  tempo,  não  se  restringisse  ao  desenvolvimento  de  novos  compostos  orgânicos  ou  de  novas metodologias de obtenção de compostos orgânicos já conhecidos: as reações “click” alcançaram, como era natural, a química inorgânica, a química de materiais e a nanotecnologia.[2]
Recentemente relatou-se a síntese de nanopartículas de ouro (AuNP) a partir da redução de citrato a quais foram submetidas  a  um  processo  de  troca  de  recobrimento  (baseado  em  citrato)  por  11-azi-doundecano-1-thiol. [3] Esta troca  teve  por  intuito  não  somente  impedir  a  formação  de  agregados  entre  as  AuNPs  em  solventes  orgânicos, necessários em um grande número de reações, mas também de aproveitar a alta área superficial das AuNPs como suporte para reações click entre a azida presente no recobrimento e um substrato.
Del  Castillo  e  colaboradores [4],  por  sua  vez,  relataram  a  primeira  ciclo-adição  entre  uma  azida  metálica (Ph3PAuN3)  e  um  acetilídeo  metálico  (Ph3PAuC≡CPh)  (Figura  1),  a  qual,  de  certa  forma,  pode  ser  considerada como  a  “versão  inorgânica”  de  reação  1,3-dipolar  de  Huisgen*.  O  estabelecimento  desta  nova  possibilidade  de síntese dá azo a especulações e estudos acerca de reações similares contendo metais que não o Au(I) assim como no que se refere à robustez do método em relação às condições de reação. 

Já Heinz e col. 2010 [5], intentando a produção de blocos de montagem para a formação de materiais híbridos, apresentaram  a  preparação  de  clusters  de  metal  oxo  de  titânio  e  zircônio  com  ligantes  carboxilatos  ω-alcino-substituídos,  Ti6O4(OPr)8(OOC(CH2)2C≡CH)8   e  [Zr6O4-(OH)4(OOC(CH2)3C≡  CH)12]2 ,  os  quais  podem  ser utilizados para “click”† reações entre clusters e polímeros, fornecendo novas propriedades a estes últimos.
Nanosistemas constituídos de micelas poliméricas, nanopartículas poliméricas, lipossomas, capsulas poliméricas, nanopartículas metálicas e de sílica, quantum dots‡, nanotubos de carbono, fulerenos e bionanopartículas têm sido extensivamente  estudados  como  sistemas  de  entrega  de  drogas§ ou  como  materiais  de  contraste  de  imagem  e diagnóstico**, dependendo das características intrínsecas ou adquiridas de cada material. Neste contexto, numerosos exemplos  de  reações  “click”  têm  sido  reportados  seja  preparação  como  também  funcionalização  destes  materiais, utilizando, dentre os processos “click”, reações como a ciclo-adição 1,3-dipolar de Huisgen catalizada por Cu(I), o acomplamento tiol-eno, a adição de Michael e a reação de Diels-Alder.[6 - 8]
Outra  aplicação  para  as  reações  “click”  é  a  produção  de  “metal-organic  frameworks”  (MOF),  os  quais  são caracterizados como compostos constituídos de ligantes orgânicos rígidos ligados a íons metálicos, formando uma estrutura  porosa   de   alta  potencialidade   catalítica,  de  estocagem   gasosa  dentre  outras  aplicações.  Goto   e colaboradores [9] relatam  a  síntese  de  um  MOF  a  partir  da  reação  catalisada  por  Cu(I)  entre  Zn(II)  e  um  ligante modificado  com  azida  (Figura  2),  na  presença  diferentes  alcinos.  Esta  aplicabilidade  das  reações  click  não  é  só interessante  devido  às  possíveis  propriedades  que  um  MOF  pode  apresentar  mas,  especialmente,  devido  às condições  geralmente  drásticas  (alta  temperatura  e  pressão)  necessárias  a  produção  de  um  MOF,  o  qual  não  é necessária a partir desta abordagem.

Em  resumo,  pode-se  concluir  que  a  química  click  é  uma  abordagem  que  se  apresenta  em  ampla  expansão. Entretanto,  vale  ressaltar  que  ainda  é  necessário  o  desenvolvimento  de  blocos  de  montagem  e  metodologias reacionais  que  supram  todas  as  necessidades  no  concernente  às  propriedades  desejadas  aos  materiais  (maior durabilidade,  propriedades  mecânicas  e  eletrônicas  diferenciadas,  especificidade  reacional  frente  a  um  substrato, etc.). Neste ínterim, não se deve desconsiderar o desenvolvimento de química que se pode chamar “não-click” desde que, apesar de poder carregar problemas em relação à complexidade ou custo de processo, ela pode se apresentar como uma solução momentânea ou mesmo a melhor solução para certos “problemas químicos” (ou necessidade de propriedades químicas específicas) atuais. 

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* A ciclo-adição 1,3-dipolar de Huisgen se baseia na reação entre uma azida (N=N=N-R) e um alcino (HC≡C-R’), catalizada por Cu(I).
† O termo click assume o significado de “reagir rápida e facilmente”, seguindo os critérios estabelecidos por Kolb e colaboradores.
‡ Quantum dots, ou “pontos quânticos”. Neste texto preferiu-se manter o termo original do inglês por acreditar-se melhor caracterizar as características eletrônicas unidimensionais do material.
§ Micelas poliméricas, nanopartículas poliméricas, lipossomas, capsulas poliméricas, nanopartículas metálicas e de sílica, nanotubos de carbono, fulerenos e bionanopartículas.
** Nanopartículas metálicas magnéticas e quantum dots.

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2. Referências Bibliográficas

[1] H. C. Kolb, M. G. Finn, K. B. Sharpless. Angew. Chem. Int. Ed. 40, 2004 (2001).
[2] W. H. Binder, R. Sachsenhofer. Macromol. Rapid Commun. 28, 15 (2007).
[3] D. Baranov, E. N. Kadnikova. J. Mater. Chem. 21, 6152 (2011).
[4] T. J. Del Castillo, S. Sarkar, K. A. Abboud, A. S. Veige. Dalton Trans. 40, 8140 (2011).
[5] P. Heinz, M. Puchberger, M. Bendova, S. O. Baumann, U. Schubert. Dalton Trans. 39, 7640 (2010).
[6] E. Lallana, A. Sousa-Herves, F. Fernandez-Trillo, R. Riguera, E. Fernandez-Megia. Pharm. Res., DOI 10.1007/s11095-011-0568-5 (2011). 
[7] X. Jiang, J. Liu, L. Xu, R. Zhuo. Macromol. Chem. Phys. 212, 64 (2011).
[8] S. Rana, H. J. Yoo, J. W. Cho, B. C. Chun, J. S. Park. J. Appl. Pol. Sci. 119, 31 (2011).
[9] Y. Goto, H. Sato, S. Shinkai, K. Sada. J. Am. Chem. Soc. 130, 14354 (2008).